ENDOMETRIOSE

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O que é a Endometriose?  

Leia o texto abaixo após clicar aqui.

 A Endometriose constitue doença enigmática de etiologia incerta. É caracterizada pelo implante ectópico, extra-uterino, de tecido endometrial.

Representa ginecopatia frequente e muito estudada nos últimos anos. Foi descrita primariamente em 1860, porém somente a partir de 1920 surgiram trabalhos mais detalhados com a nomenclatura de Endometriose.

Estima-se que a patologia esteja presente em 10% das mulheres em idade reprodutiva. Apresenta prevalência de 4,5 a 33,3% em mulheres submetidas a tratamento de esterilidade; 4,5 a 21,2% entre as pacientes atendidas com dor pélvica e 0 a 7,1% nas portadoras de tumoração pélvica.

Apesar de observarmos progressiva elevação de sua incidência nos últimos tempos, precisá-la com exatidão torna-se difícil. Alguns serviços podem referir o encontro desta patologia em mais de 50% das mulheres com esterilidade conjugal ou portadoras de algia pélvica. Concorrem para esta imprecisão: a necessidade da laparoscopia pélvica, realizada por profissional experiente, para o diagnóstico  apurado; e a ausência de uma correlação estreita entre o quadro clínico e a evolução da doença.

Isto significa que se realizássemos laparoscopia pélvica em todas as pacientes com esterilidade conjugal ou algia pélvica e durante a  laparoscopia procurássemos atentamente as lesões típicas e atípicas da doença, além de biopsiar qualquer área suspeita ou mesmo peritônio normal na região retro-uterina, encontraríamos taxas de incidência extremamente elevadas sem que se possa, até o momento, concluir sobre qual sua real importância na etiologia do problema.

Muitas são as teorias que surgiram na tentativa de elucidar os reais fatores causais da Endometriose, uma das mais recentes e importantes são as que pesquisam um substrato imunológico. Porém, até hoje, nenhuma delas conseguiu desvendar por completo os mistérios desta patologia.

A localização mais frequente dos implantes endometrióticos são sobre a superfície dos ovários ou dos ligamentos útero-sacros. A sintomatologia geralmente é representada por: dor no período peri-menstrual; dor pélvica crônica; esterilidade; irregularidade da menstruação, dor durante as relações sexuais e alterações urinárias ou intestinais relacionadas com a época menstrual. O exame médico minucioso pode revelar alterações sugestivas para estabelecer o diagnóstico da doença.

O desenvolvimento de técnicas não invasivas para o diagnóstico da Endometriose tem sido objeto de profundos estudos em todo mundo. Contudo, ainda hoje não é possível contar com técnicas simples de diagnóstico que possuam boa precisão.

Os principais exames complementares utilizados são: dosagem do CA-125; pesquisa de anticorpo anti-endométrio; ultra-sonografia pélvica; tomografia computadorizada; ressonância magnética e laparoscopia pélvica.

Laparoscopia: é, ainda hoje, a principal modalidade de investigação para a Endometriose. Além de permitir, principalmente com o uso da videolaparoscopia, o tratamento cirúrgico das lesões na maioria dos casos, neste procedimento é importante que se visualize toda a pelve, a superfície ovariana, fossa ovárica, fundo de saco de Douglas e ligamentos útero-sacros devem ser criteriosamente examinados. Assim, poderemos identificar as chamadas lesões típicas e atípicas da Endometriose.

Foram propostas muitas formas de classificar os variados graus de Endometriose. Em 1978 a “Ameican Fertility Society” reuniu vários especialistas e propôs uma classificação em sistema de escores. Em 1985 esta classificação foi revisada e tem sido a mais adotada em todo mundo.

Existe muita controvérsia sobre o tratamento ideal da Endometriose. Tal fato acontece porque não conhecemos exatamente o mecanismo etiológico nem a fisiopatologia da dor pélvica ou da esterilidade que acompanham esta patologia. Dividiremos em tratamento clínico, cirúrgico e combinado.

Tratamento clínico: baseia-se na diminuição do estímulo de crescimento e consequente involução dos focos de Endometriose. Tem a seu favor o fato de que nem sempre é possível visualizar todos os sítios da doença. Por outro lado há relatos que endometriomas maiores de 1 cm de diâmetro respondem fracamente à medicação.

As principais substâncias utilizadas no tratamento clínico são as seguintes: progestagênios; associação de estrogênios e progestagênios; gestrinona; danazol; análogos do GnRH; outros anti-estrogênicos e antiinflamatórios não hormonais.

Tratamento cirúrgico: pode compreender desde a cauterização de minúsculos focos de Endometriose até a retirada do útero e dos ovários. Nas pacientes com desejo reprodutivo a cirurgia conservadora tem papel preponderante na tentativa de restituir uma normalidade da anatomia pélvica, aumentando as chances de gravidez. Lembrar que a gravidez na maioria dos casos, pela predominância de estriol e progestagênios, colabora para o tratamento da doença.

A cirurgia pode ser realizada por laparoscopia ou laparotomia. Quando realizada por laparotomia deve seguir os tempos dos procedimentos microcirúrgicos, aumentando assim as chances de gravidez.

A cirurgia endoscópica tem prestado auxílio importante, não só pela possibilidade de realizar os procedimentos terapêuticos durante um exame propedêutico necessário, como também pela menor probabilidade de formar aderências. Além disto a paciente pode permanecer em ambiente hospitalar um intervalo de tempo bem mais curto.

Devemos destacar a necessidade da monitorização terapêutica com avaliação do CA-125 e estradiol séricos.

Nos estadiamentos I e II após o tratamento clínico a conduta é discutível. Alguns aguardam certo período de tempo (6 a 12 meses) para que a gravidez possa ocorrer espontaneamente. Preferimos, entretanto, a estimulação da ovulação realizando teste pós-coito na fase pré-ovulatória. Com teste pós-coito positivo, orientamos para a monitorização da estimulação da ovulação durante 6 ciclos e relação em dia programado. Na presença de alteração espermática ou de inadequada interação entre o muco cervical e os espermatozóides, o esquema de estimulação é mantido por igual período de tempo com a realização concomitante de inseminação artificial com sêmen do marido.

A introdução de tratamento clínico prévio ao procedimento cirúrgico deve ser lembrada, visando melhorar o prognóstico em casos avançados com forte indício diagnóstico estabelecido por punção de endometriomas, ou em casos de doença recorrente.

As pacientes com diagnóstico de Endometriose devem manter um seguimento rotineiro devido a possibilidade de recidivas, quando desejam anticoncepção os contraceptivos orais combinados ou os progestágenos trimestrais, se não houver contra-indicações, são as melhores opções.

Finalmente, enfatizamos a grande utilidade do acompanhamento psicológico das portadoras de Endometriose, cujos resultados, embora difíceis de mensurar cientificamente, são sentidos na prática clínica.

 Dr. Élvio Tognotti e Dr. Maurício Simões Abrão