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Depressão pode e deve ser tratada

A importância do aspecto emocional no tratamento da endometriose

 

 

Depressão pode e deve ser tratada

 Se as pessoas conhecessem um pouco mais sobre os mecanismos que regem a mente humana, com certeza perceberiam quando alguma coisa não está indo bem. Saberiam, por exemplo, que falta de concentração e de motivação, alterações de apetite, de sono e irritabilidade excessiva, entre outros sintomas, podem ser sinais de distúrbios dos estados afetivos e de humor – depressão, ansiedade, pânico, fobia ou obsessão. E que o melhor a fazer, nessa situação, é deixar de lado os preconceitos e procurar um especialista. Essas anomalias não são apenas um “jeito de ser” esquisito, nem “frescura”, como muitos pensam. Precisam ser tratadas.

Uma das disfunções mais frequentes, hoje, é a depressão. Segundo o médico psiquiatra Henrique Schutzer Del Nero, coordenador durante sete anos do Grupo de Ciência Cognitiva do Instituto de Estudos Avançados da USP, esse tipo de “desregulagem” afeta uma gama enorme de pessoas de todas as idades, manifestando-se sob formas e intensidades diferentes. Existem as melancólicas, que são as mais típicas; as irritáveis e impulsivas, que se manifestam por um humor horroroso; as ansiosas; e as psicóticas, quando a pessoa começa a confundir seriamente afetos e idéias.

A intensidade varia, abrangendo de quadros leves a transtornos mais graves. Há as distimias, que não chegam a afetar tanto as funções vitais, mas deixam a pessoa mais apagada e irritadiça; as moderadas, nas quais ocorre uma perda significativa da capacidade de produzir, estudar e trabalhar; e as mais intensas, em que o indivíduo esquece até de se cuidar, adotando um comportamento de abandono absoluto. Nas três formas, o risco de suicídio pode estar presente.

“O que indica a depressão”, explica o médico, “é a alteração do humor, da motivação e da disposição, perdurando esse estado no mínimo por seis a oito semanas. Caracteriza-se essencialmente pela baixa de auto-estima e de atenção, humor triste,  parado ou muito irritado, impulsivo ou ansioso, sono excessivo ou dificuldade de dormir, com despertares sucessivos durante a noite, perda ou ganho de peso, numa média de 3 a 5 quilos, sem intenção ou regime. Pode manifestar-se também por meio de sintomas físicos, como aperto na cabeça, falta de ar, formigamento e diarréia, entre outros, desde que descartadas as causas orgânicas."

Henrique Del Nero lembra que não se deve confundir o triste com o deprimido. “Uma pessoa triste não tem insônia”, comenta. “Pode ficar um pouco desmotivada, mas não perde significativamente o rendimento intelectual ou deixa de comer. Consegue fazer as coisas, mesmo sem vontade. O deprimido, ao contrário, não sente tristeza, mas angústia e vazio.  Não é a tristeza de quando perdi meu pai ou de quando o país perdeu a copa, relatam os pacientes. A vivência não é de um sentimento que tenha um colorido humano.”

O que desencadeia esse tipo de distúrbio? Segundo o psiquiatra, na maioria das vezes, a pessoa já tem a tendência de reagir de maneira depressiva a circunstâncias adversas. Entretanto, isso não impede que o distúrbio atinja indivíduos que não apresentem essa propensão. Na verdade, a depressão sofre profundas influências do ambiente. Normalmente, o que acontece é uma soma de fatores: tendência+deflagrador.

Embora seja difícil impedir que alguém tenha uma disfunção desse tipo – seria necessário protegê-lo de frustrações e desapontamentos de qualquer espécie -, o psiquiatra adverte que o diagnóstico precoce é primordial. “Não há vergonha em ter depressão”, enfatiza. “O importante é fazer a regulagem necessária, colocando o oleozinho que faltou para a máquina funcionar direito, evitando perda de produtividade, de qualidade de vida ou até da própria vida.”

Quanto às formas de tratamento, ele é claro e incisivo: “Tratamento de depressão se faz com remédios. E mais: a psicoterapia nem sempre ajuda. Quando o carro não funciona, é preciso consertar o motor, e não ficar tendo longas conversas com o motorista. Coadjuvada com  medicação e nas mãos de um bom profissional, a psicoterapia pode ser interessante para detectar algumas estratégias mentais do paciente e, com isso, melhorar a reação diante de causas desencadeantes. Mas é um erro pensar que ela pode substituir os remédios. É como uma pneumonia: depois que se instalou, não adianta cachecol, só antibiótico.”

Àqueles que não sabem como agir com os deprimidos, recomenda; “Não fique instigando a pessoa a sair e se divertir – o que mais deprime o deprimido é sentir que todo o mundo vai à pizzaria para se divertir e ele vai para estragar o programa. Deixe-o sossegado em casa, tomando seu remédio, até reagir. Ouça, apóie, mas faça o papel de uma ama boa e quieta. É preciso ter respeito absoluto e não dar opinião. As pessoas geralmente são ignorantes no assunto e acabam falando coisas como “faltou fé” ou “faltou força de vontade”, o que é uma bobagem. O que falta é neurotransmissor, e isso cabe ao médico cuidar.”

 

A importância do aspecto emocional no tratamento da endometriose

Carolina Lorençatto

Maria José Navarro Vieira

Celi Aparecida Thiago Maia

 

Ambulatório de Endometriose CAISM-UNICAMP

 

A endometriose é hoje uma doença  que atinge muitas mulheres e é motivo de várias consultas ginecológicas. Apesar de todo o conhecimento médico sobre a doença, ainda existem muitas perguntas sem respostas. A maioria das mulheres nunca nem ouviram falar da endometriose, antes de chegar ao diagnóstico – que muitas vezes pode levar anos, acarretando muito sofrimento físico e desgaste emocional. As informações sobre a doença começam a chegar pelo médico e depois pela busca da própria mulher que além das dúvidas e incertezas que vive com o diagnóstico, começa a experimentar uma série de frustrações e conflitos emocionais como raiva, angústia, ansiedade, medo – sentimentos comuns em todas as pessoas que se descobrem com alguma doença crônica.

Os sintomas mais comuns da endometriose são a dor (tanto associada à menstruação quanto aquela sentida na relação sexual) e a infertilidade. Um estudo mostrou que o tempo do início do sintoma até o diagnóstico definitivo pode levar 8 anos para a dor e 5 anos para a infertilidade, o que pode acarretar muito sofrimento. Além de todos os sintomas físicos que geram limitações, muitas mulheres com endometriose queixam-se de algumas alterações emocionais tais como irritabilidade, tristeza, falta de satisfação, sentimento de incapacidade, entre outras. Em grande parte, essas alterações estão relacionadas aos sintomas que experimentam e ao tempo desses sintomas. Por exemplo: uma mulher que sofre de dor crônica há 8 anos mudou muita coisa em sua vida por causa dessa dor presente dia a pós dia. Nos dias em que sente muita dor, falta do trabalho, deixa de lado as tarefas domésticas e os cuidados com os familiares, deixando de fazer coisas prazerosas como ler um livro ou conversar com a vizinha. Com o passar do tempo acaba transformando sua rotina de acordo com presença dor, abandonando velhos hábitos e desenvolvendo novos comportamentos. Pode ainda se afastar do convívio social, sentindo que é difícil falar com as pessoas ao seu redor sobre sua doença e sofrimento, tendo dificuldade em manter os laços afetivos. Os familiares e amigos acabam sofrendo também e sentem muita falta daquela pessoa sem dor, isto é, como ela era antes da doença. Muitas vezes não sabem como podem ajudar e acabam se afastando, pois já não conseguem entender essa mulher. Ao vivenciar essas mudanças e experimentar diversos sentimentos, a mulher pode desenvolver um quadro de depressão que se não for corretamente diagnosticado e tratado, prejudica o tratamento da endometriose e pode se agravar com o decorrer do tempo.

Muitas mulheres com endometriose atendidas pelo Serviço de Psicologia do Ambulatório de Endometriose do CAISM (UNICAMP) apresentam a queixa de solidão. É como se estivessem sozinhas na condição de sofrimento, sentindo aquela dor e toda conseqüência que ela traz. Outras, devido à dificuldade de engravidar, sentem-se diferentes de todas as outras mulheres, como se estivessem incompletas – pensamento gerado pelo sentimento de incapacidade de ter um filho. A maneira como vivem esses sintomas é muito pessoal, o que chamamos de forma subjetiva – que faz parte de sua história de vida, de seus desejos e sofrimento. Porém podemos perceber alguns sentimentos comuns – já ditos anteriormente, como a raiva, tristeza, angústia; que aparecem juntamente com os sintomas, pelos danos que estes provocam no decorrer do tempo.

Nem sempre esses sentimentos são tratados com a devida atenção que merecem. Passam desapercebidos no tratamento e pela mulher por falta de tempo de pensar no emocional. Reconhecer seus sentimentos frente à dor e/ou a dificuldade de engravidar, e as mudanças que estas coisas trouxeram para sua vida pode ser um começo para viver melhor. Como isso? Quer dizer que esses sintomas vão desaparecer ou deixar de me fazer sofrer? Não, de maneira alguma isso pode ser garantido. O objetivo de considerar o aspecto emocional no tratamento da endometriose é de compreender a associação existente entre esse fator com a doença e seus sintomas, para estabelecer um tratamento mais efetivo garantindo atenção para queixas físicas e emocionais. Por exemplo: se você está cansada das tentativas frustradas de engravidar já não acredita mais no tratamento, anda chorando demais, já não consegue trabalhar, estudar, enfim, fazer suas atividades diárias, existe uma grande chance de abandonar tudo, se fechar cada vez mais na sua tristeza e esquecer de tudo em sua volta. Nesse caso seria muito importante procurar ajuda de um profissional, para sentir-se melhor emocionalmente e ter recursos para enfrentar a doença. Nem sempre é necessário procurar ajudar de um psicólogo. Isso deve acontecer quando a pessoa já não consegue mais pensar e identificar motivo de sentir-se tão mal e não consegue reverter essa situação de sofrimento sozinha.

Um sintoma físico como a dor não deve ser encarado apenas como manifestação de que algo não vai bem com a minha saúde, por exemplo. Só quem sente a dor pode saber o quanto ela está incomodando e tudo o que ela traz além do desconforto físico. Você pode perceber que num dia que acorda com dor, tudo o que acontece de ruim como uma briga familiar por exemplo, parece fazer com que sua dor aumente. Ou ao contrário, alguma coisa que deixou você muito feliz ou tranqüila pode diminuir sua sensação de dor.  A ansiedade, presente na vida de muitas pessoas pode aumentar a dor, assim como um dia de faxina pesada. Essas são situações onde você pode perceber a influência do que vive no dia a dia sob sua sensação de dor. Reconhecer essas situações e sentimentos que interferem na sensação dolorosa faz com que você consiga controlar melhor sua dor, identificando o que piora e que diminui o sofrimento. Não tem como separar o que pensamos e o que nosso corpo expressa, por exemplo: uma hora eu tenho dor, na outra hora eu tenho raiva. Devemos entender nosso corpo como uma unidade, onde muitas coisas acontecem juntas. Percebendo isso, você pode ser capaz de enfrentar sua doença e sintomas mais ativamente, reconhecendo a influência de suas emoções no enfrentamento da endometriose e sentindo-se mais segura superar as dificuldades do tratamento.

Alguns profissionais de saúde acreditam que existe um perfil psicológico característico das mulheres com endometriose. Ainda não foi desenvolvida uma pesquisa científica que comprove esse fato, mas alguns traços de personalidade são observados freqüentemente nessas mulheres.  Alguns deles são: perfeccionismo – tudo tem que estar perfeito, sob controle e muito organizado; auto-exigência – se cobram demais, tudo tem que acontecer como o planejado e é difícil admitir as falhas, lidar com os próprios erros; capacidade de controle e comando – conseguem com facilidade organizar e estruturar tarefas, não enrolam em suas atividades diárias e podem até organizar a vida de pessoas em sua volta, assumindo problemas dos outros; sentem necessidade de manter o controle daquilo que poderá acontecer. Essas são algumas das características observadas que não necessariamente estão presentes em todas as portadoras de endometriose e que não podemos afirmar que estão correlacionadas com o desenvolvimento da doença, pois existem muitas mulheres com traços semelhantes que não têm endometriose. Ainda precisamos de estudos científicos que determinem a força de associação dos fatores emocionais no desenvolvimento da endometriose e que permitam traçar um perfil psicológico característico dessas mulheres.

Considerada como doença da mulher moderna, os especialistas acreditam que o stress pode ser um fator importante no desenvolvimento e tratamento da endometriose. Sabemos que a mulher mudou muito seu papel na sociedade, e cada vez mais aumenta suas tarefas e responsabilidades no dia a dia. Mesmo trabalhando fora, ajudando ou mantendo o orçamento financeiro, a mulher ainda é responsável pelas tarefas domésticas, cuidados com casa, filhos, marido, etc. A cobrança da sociedade é muito grande, quanto ao papel de mãe, de mulher, de profissional, de esposa. Desde pequena as mulheres são educadas para exercerem esses papéis e em algumas parece que isso é mais forte e que tudo deve estar perfeito: ser a melhor mãe, a melhor esposa, etc. Mas esse ideal de perfeição não se atinge e no final de tudo, resta um sentimento de incapacidade, de frustração e culpa. Ao refletir sobre esses fatores fica mais fácil entender o por quê muitas mulheres sentem-se sobrecarregadas, cheias de tarefas e com conflitos emocionais importantes, com dificuldade para solucioná-los.

Perceber no seu dia a dia fatores que provocam stress é muito importante para cuidar de sua saúde (física e emocional). Nem sempre dá para retirar esses estressores, mas você pode mudar sua relação com eles. Os sintomas mais comuns de stress são: mãos suadas, respiração rápida, “batedeira” no coração, agitação ou lentidão, falta de apetite, dor de estômago e dor de cabeça, entre outros. As pessoas com stress geralmente perdem o interesse nas coisas que antes eram agradáveis, ficam com uma sensação de estar doente, sem que realmente haja qualquer doença física. Existem 4 fases do stress, que são classificadas de acordo com a intensidade dos sintomas e afastamento social que estes provocam. Um pouco de stress é normal em nossa vida diária e é impossível eliminar de uma só vez todos os fatores estressantes, mas existe um limite. E o problema está justamente em reconhecer esse limite, principalmente quando se tem um fator estressor de grande peso como a endometriose.

Muitas vezes você vai ouvir de profissionais da saúde que a melhora de algumas doenças podem ocorrer se diminuir o stress do dia a dia. O primeiro pensamento é de que isto é impossível considerando a vida moderna que vive. Então o que fazer?

Considerando o que foi dito sobre o stress, sabemos que ele não vai acabar, mas pode ser diminuído com diversas atitudes simples e que requerem de você o primeiro passo. Mudanças de hábitos e comportamentos podem ser positivas quando se pensa em melhorar alguns aspectos de vida; como encontrar válvulas de escapes ,ou seja, buscando atividades prazerosas e de lazer. O que faz bem a você, assim como as atividades físicas rotineiras produzem no seu organismo uma substancia chamada de droga da felicidade, e que ajuda a enfrentar melhor as situações difíceis e a aumentar o limiar de dor.

Muitas vezes colocamos diversos obstáculos para as mudanças de hábitos e até listamos desculpas para não realizá-las, como por exemplo: não iniciar uma atividade física por falta tempo, falta dinheiro. Será que não merecemos um tempo para a saúde? É muito importante lembrar que você é responsável pelas coisas que lhe acontece; não dá para ficar colocando a culpa pelas coisas ruins nas outras pessoas, ao acaso ou ao destino. Quando acredita que a cura de qualquer doença virá somente do uso de medicações prescritas pelo médico, você está se livrando de qualquer responsabilidade sobre sua saúde, pois as medicações agem no nosso corpo e trazem uma melhora que funciona à medida que a agressão é detida, mas nem sempre é suficiente. Você deve estruturar as prioridades de sua vida de acordo com suas necessidades, mas não esqueça que sua saúde também está pedindo atenção. Por esse motivo deve assumir o “leme do barco nessa viagem que está fazendo”, isto é, deve tomar atitudes positivas que proporcionam benefícios para você. Várias prefeituras e instituições oferecem programas de atividades físicas com valores acessíveis ou gratuitos que você pode procurar. Caso não encontre essa ajuda, pode fazer caminhadas – não vale aquela desculpa “já vou andando para o serviço” – consideradas também benéficas para saúde. 

 Seria importante identificar o que acontece com você nos aspectos físico, emocional, social e profissional. Entenda que você é uma constituição e resultado da interação entre seu corpo, sua mente e o lugar onde você vive (ambiente). Você se comporta nesse mundo de acordo com suas estruturações mentais e físicas, que também se formam pela sua relação com ele. Não deixe de olhar para todos os lados, não esqueça de cuidar de você por completo. Pense em como anda sua vida, nas mudanças que você sofreu no decorrer dos anos, de como era na adolescência, seus sonhos e planos. Resgate todo o conhecimento sobre você mesma, através de sua história de vida, identificando os momentos bons e ruins. Quando se identifica um conflito emocional muito forte, um trauma que trouxe conseqüências em sua vida e que de alguma forma pode estar relacionado ao seu sofrimento atual, pode ser hora de pedir ajuda a um psicólogo. Você não precisa ter um trauma necessariamente, mas se está percebendo que o sofrimento causado pela endometriose é grande e não está conseguindo superar suas angústias, talvez fosse legal buscar essa ajuda.

Alguns estudos conseguiram mostrar o papel das emoções no desenvolvimento de doenças e importância delas no tratamento. Ainda não há nada científico que comprove que a raiva pode levar a uma doença X, por exemplo. Mas é importante lembrar sempre que seu corpo não é constituído somente de órgãos, mas também de uma mente, e assim como uma engrenagem, também deve funcionar em harmonia. Melhorar a qualidade de vida, muitas vezes diminuída pelos problemas do dia a dia é essencial para qualquer tratamento, seja qual for à doença. Por essa razão, você já sabe da importância de cuidar de sua alimentação, dormir bem, praticar exercícios, ter atividades gratificantes, enfim, manter o equilíbrio de sua vida com atitudes simples. Esse equilíbrio só você pode encontrar, não existe um modelo ideal. Busque seu equilíbrio através do reconhecimento dos seus limites e recursos internos para viver melhor, mesmo com a endometriose! Boa sorte e sucesso!.

 

 

 

 

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